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sábado, 9 de fevereiro de 2008

Os verdadeiros patriotas

Mais uma vez, escrevo para defender uma causa, na verdade um grupo. O grupo de brasileiros patriotas que são muitas vezes injustiçados e vistos como "aqueles que odeiam o país". Conversando com um grande amigo meu, também professor, listamos várias razões pelas quais os verdadeiros patriotas não são os jogadores de futebol e seus fãs (para ser honesta, nem mencionamos os tais, mas já ouvi dizerem que são eles que "defendem a bandeira brasileira lá fora"). Como podem os milionários esportistas serem os tais patriotas e serem tão defendidos por muitos que habitam nosso enorme território? Eles moram em outro país e lá investem a maior parte de seu dinheiro. Muitos têm cidadania dupla, defender duas nações os torna melhores do que nós que cá estamos?
Temos aí o segundo grupo de grandes patriotas: a legião de fãs. Atentem, leitores, para o fato de que os jogadores são apenas um dos exemplos possíveis, talvez o mais valorizado em nosso país; seus fãs, por outro lado, são um número consideravelmente grande aqui na terra do Carnaval. Não necessariamente todo fã se enquadra no grupo que descrevo em seguida. Não é rotulação, apenas descrição comportamental de alguns e as ações não pertencem todas ao mesmo grupo. Estes sim são grandes defensores do país: jogam lixo no rio que querem ver limpo, não pagam impostos, alguns recebem ajuda do governo para "viver mais decentemente", vendem CDs piratas como forma de sobrevivência, esquecem de matricular seus filhos na escola mais próxima, aqueles que têm a chance de viajar para fora não jogam o cigarro nas ruas do Canadá porque lá é tudo limpinho e quando voltam ao território nacional permitem-se jogar um papel de bala porque "um a mais não fará diferença", esquecem a torneira aberta para atender ao telefone... É melhor parar por aqui porque a lista é interminável e não tenho tanto tempo assim para escrever.
Bem, se você gosta de viajar e sentir frio em outro continente você deixa de ser patriota? Se você não gosta de axé, pagode ou da bagunça do Carnaval você não defende seu país? É o que pensam do grupo a que pertenço e cansei de me explicar aos que criticam. Gostar de música brasileira é bem mais amplo que apreciar axé (e não sei mesmo como alguém aprecia aquilo), gosto de samba, chorinho e muitos dos meus amigos e colegas do grupo rotulado de "anti-nacionalista" também. Viajamos e no intercâmbio cultural deixamos no país visitado uma boa imagem do Brasil com o mesmo comportamento que temos em nosso território. Reciclamos. Pagamos os impostos. Estudamos e aplicamos o que aprendemos aqui. Compramos DVDs originais (e todo mundo ri dos "tolos"). Pensamos antes de votar. Falamos consideravelmente bem a nossa língua e a defendemos. Reclamamos do rio poluído sim, mas não jogamos o papel de bala que "não faz diferença".
Gostaria de saber, então, por que o jogador de futebol é mais nacionalista e patriota do que todos nós juntos? Alguns de nós inclusive sabemos jogar bola...

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Burrice X Ignorância

Em recente visita a uma pequena, distante e praticamente desconhecida cidade italiana chamada Roma tive o desprazer de sentar perto de um jovem brasileiro no restaurante em que jantava. Foi realmente uma das piores experiências curtas da minha vida (ganha até dos muitos "vou estar fazendo" que ouço por aí). Bem, logo que nos sentamos (é claro que eu não estava sozinha, tenho testemunhas) percebemos que a língua falada na mesa seguinte era, aparentemente a mesma que falamos aqui. Passados alguns minutos toca o celular do distinto rapaz que, em respeito a sua mulher e em desrespeito a todos os outros presentes, aciona o viva-voz para que possam os dois conversar com o infeliz interlocutor. Por sorte (embora de sorte não haja nada aí) só ouvíamos a voz do indivíduo atrás de nós. Para explicar sua visita à insignificante cidade ele usou as seguintes palavras (reproduzo o que ouvi portanto perdoem-me o linguajar): "Meu hoje fomo ao Coliseu, cara. Uma puta bosta, só tinha ruína, tudo quebrado!". Não é necessário entrar em detalhas sobre minha reação e a dos demais à minha mesa.
Analisemos. O elemento que produziu tais palavras esperava encontrar o que exatamente? Gladiadores? Feras? Cristãos sendo devorados? César talvez? Acho até que ele queria ver Cleópatra por lá do modo como vejo suas expectativas. Ele certamente assistiu à megaprodução de Gladiator e achou que estava tudo do mesmo jeito. O que são alguns milênios? Aliás, duvido que o sujeito tenha qualquer noção da idade das tais ruínas.
Este é o maior exemplo de burrice que conheço. Se você compra uma passagem para Roma e espera encontrar um resort de praia é sinal de que não sabe o que fazer com o dinheiro. Se nunca ouviu falar sobre o lugar, abra um livro, um guia, use a Internet, pesquise. Burrice é criticar o que não conhece e não fazer o mínimo esforço para aprender. Já dizia Oscar Wilde, "there's no sin except stupidity".
Para exemplificar, então, a ignorância trago o mesmo local, só que alguns dias após o infortúnio supracitado, portanto em foto. Mostro a foto a um colega de trabalho que nunca foi à Europa, mas tenho certeza de que um dia lá pisará. Qual a reação ao ver uma reles fotografia dos pedaços de construções romanas? Arrepiou-se e bombardeou-me com perguntas sobre história, civilização. Ignorava muitos fatos antes, mas é um ser pensante e aprende.
Bem, digo a todos aqueles que acham que me irrito facilmente com a ignorância, ledo engano. A burrice não tolero. Ignorantes todos somos e portanto eternos aprendizes.

O (in)crível mundo em que vivemos

Nascemos. Por mais amassados, feinhos e chorões que sejamos, uma das primeiras frases que nos repetem é: "Que lindinho/a!". Ótimo começo. Uma mentirinha inocente e de fácil credibilidade. E assim continua: "Não vai doer", "Só mais uma colherada", "O vovô está com os anjos" (opa, não dá para provar, nem para desmentir esta, então não vale), "Para sempre", "Eu prometo..." (em várias instâncias), "Já volto", "Cinco minutinhos" e outras tantas frases cotidianas e muitas vezes previsíveis. Com o tempo, crescemos e percebemos que, em nossa estimada cultura, a mentira é, quase sempre, mais crível que a verdade.
"Elvis está morto". Por que acreditar em algo tão óbvio? E surgem as teorias de conspiração para provar o contrário, muitos lutam para provar que mentiram para nós, enganaram o mundo. John Lennon, Ulisses Guimarães e muitos outros habitam a mesma ilha do rei do rock. "O Brasil é um país de terceiro mundo". Ora, como pode? E temos aqueles programas de televisão para nos convencer de que aqui é o paraíso (pode até ter lugares paradisíacos, concordo, mas é um pouco grande para se restringir a tais pontos).
Agora quando nos dizem "Não aumentarei os impostos de modo algum" a situação muda. É muito fácil acreditar em Papai Noel quando se tem 3 anos e em político dos 16 aos 150 anos. É praticamente igual, os dois carregam um saco de surpresas. Quem vai querer dar murro em ponta de faca? Melhor acreditar ou fingir que acreditamos em algo e continuarmos com a apologia à mentira.
"Não é nada sério" diz o médico. E pede a batelada de exames. "Ai, amor, prometo que vou parar de fumar". "Este ano vou perder 5 kilos", "Chegarei às sete em ponto". É hilário como qualquer uma das frases é aceita como verdade, ainda que parcial (é o pior, certo?). Sete horas e quinze minutos para quase todos é a mesma coisa que sete horas. E não tente reclamar porque será motivo de chacota, você é que está errado em achar que a frase era verdadeira.
Em respeito às muitas verdades que circulam por aí, agora que o Carnaval passou, espero o coelhinho da Páscoa.