Em recente visita a uma pequena, distante e praticamente desconhecida cidade italiana chamada Roma tive o desprazer de sentar perto de um jovem brasileiro no restaurante em que jantava. Foi realmente uma das piores experiências curtas da minha vida (ganha até dos muitos "vou estar fazendo" que ouço por aí). Bem, logo que nos sentamos (é claro que eu não estava sozinha, tenho testemunhas) percebemos que a língua falada na mesa seguinte era, aparentemente a mesma que falamos aqui. Passados alguns minutos toca o celular do distinto rapaz que, em respeito a sua mulher e em desrespeito a todos os outros presentes, aciona o viva-voz para que possam os dois conversar com o infeliz interlocutor. Por sorte (embora de sorte não haja nada aí) só ouvíamos a voz do indivíduo atrás de nós. Para explicar sua visita à insignificante cidade ele usou as seguintes palavras (reproduzo o que ouvi portanto perdoem-me o linguajar): "Meu hoje fomo ao Coliseu, cara. Uma puta bosta, só tinha ruína, tudo quebrado!". Não é necessário entrar em detalhas sobre minha reação e a dos demais à minha mesa.
Analisemos. O elemento que produziu tais palavras esperava encontrar o que exatamente? Gladiadores? Feras? Cristãos sendo devorados? César talvez? Acho até que ele queria ver Cleópatra por lá do modo como vejo suas expectativas. Ele certamente assistiu à megaprodução de Gladiator e achou que estava tudo do mesmo jeito. O que são alguns milênios? Aliás, duvido que o sujeito tenha qualquer noção da idade das tais ruínas.
Este é o maior exemplo de burrice que conheço. Se você compra uma passagem para Roma e espera encontrar um resort de praia é sinal de que não sabe o que fazer com o dinheiro. Se nunca ouviu falar sobre o lugar, abra um livro, um guia, use a Internet, pesquise. Burrice é criticar o que não conhece e não fazer o mínimo esforço para aprender. Já dizia Oscar Wilde, "there's no sin except stupidity".
Para exemplificar, então, a ignorância trago o mesmo local, só que alguns dias após o infortúnio supracitado, portanto em foto. Mostro a foto a um colega de trabalho que nunca foi à Europa, mas tenho certeza de que um dia lá pisará. Qual a reação ao ver uma reles fotografia dos pedaços de construções romanas? Arrepiou-se e bombardeou-me com perguntas sobre história, civilização. Ignorava muitos fatos antes, mas é um ser pensante e aprende.
Bem, digo a todos aqueles que acham que me irrito facilmente com a ignorância, ledo engano. A burrice não tolero. Ignorantes todos somos e portanto eternos aprendizes.
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
domingo, 3 de fevereiro de 2008
"Já coisou o trequinho?"
Você já sentiu que estava em uma dimensão paralela à que habita e que, apesar de grande semelhança fonética, a língua falada a seu redor era incompreensível. É exatamente assim que me sinto toda vez que me perguntam algo do tipo "Já coisou o trequinho?". Por mais que esteja acompanhando a conversa e até interagindo é impossível decifrar a pergunta. Ela é tão vazia de significado e ao mesmo tempo preenchida por tantos que não há como não se confundir. O pior é responder com uma pergunta: "Como?" É exatamente o momento em que estou mais perdida porque não há meios de substituírem "coisar" e "treco" por algo mais específico. A pergunta é repetida e eu apenas ganho mais tempo para tentar decodificá-la.
Bem, sem saída, começo a analisar e pressiono a mente a trazer rapidamente uma resposta. Os interlocutores aguardam impacientes por uma. Invariavelmente deve ser a respeito de algo que eu deveria ter feito (a conjugação verbal deve ser a mesma do português e o advérbio tem de ser cognato, não tenho tempo para adivinhar). A julgar pelo sufixo (novamente supondo que a tal língua/o tal dialeto tenha raízes na nossa língua) imagino que seja um objeto de tamanho reduzido (e também excluo substantivos femininos): livro, copo, brinco, celular, brinquedo... Muitas idéias. Trabalho com o verbo: comprou, pegou, leu, consertou, assistiu... Raios! São tantas as possibilidades e os milésimos de segundo disponíveis para raciocinar esgotaram-se. Todos esperando uma reação. "Sim, já." Parece sempre uma resposta plausível e adequada à situação, afinal "trequinho" não pode ser algo tão importante assim. Todos sorriem, a conversa continua, minha mente relaxa. Claro que só até alguém perguntar: "Cê vai no coiso esse findi?"
Não há sossego. É preciso apostilar novas modalidades lingüísticas (ops! nem posso mais usar o trema - disseram-me que eu era uma das 10 pessoas no mundo que o achavam útil). Criar dicionários (já imaginou a quantidade de páginas para o verbete "coisar"?). Tenho muita vontade de aprender, só não quero ter de responder de qualquer jeito, sem entender o que me perguntam. Já entendo "sua batata tá assando", "sipá", "cê tá causando" e outras dez expressões do tipo. Inclusive já tive a oportunidade de ensinar algumas e contextualizá-las para outros colegas que caminhara para a dimensão paralela. Ainda assim estou perdida. Se algum leitor puder fazer a gentileza de indicar um curso rápido (claro, para acompanhar as mudanças constantes de significado de palavras como "troço" terei que fazer diversos cursos rápidos), agradeço. Melhor ainda, deixo um "Valeu, mano." para você.
Bem, sem saída, começo a analisar e pressiono a mente a trazer rapidamente uma resposta. Os interlocutores aguardam impacientes por uma. Invariavelmente deve ser a respeito de algo que eu deveria ter feito (a conjugação verbal deve ser a mesma do português e o advérbio tem de ser cognato, não tenho tempo para adivinhar). A julgar pelo sufixo (novamente supondo que a tal língua/o tal dialeto tenha raízes na nossa língua) imagino que seja um objeto de tamanho reduzido (e também excluo substantivos femininos): livro, copo, brinco, celular, brinquedo... Muitas idéias. Trabalho com o verbo: comprou, pegou, leu, consertou, assistiu... Raios! São tantas as possibilidades e os milésimos de segundo disponíveis para raciocinar esgotaram-se. Todos esperando uma reação. "Sim, já." Parece sempre uma resposta plausível e adequada à situação, afinal "trequinho" não pode ser algo tão importante assim. Todos sorriem, a conversa continua, minha mente relaxa. Claro que só até alguém perguntar: "Cê vai no coiso esse findi?"
Não há sossego. É preciso apostilar novas modalidades lingüísticas (ops! nem posso mais usar o trema - disseram-me que eu era uma das 10 pessoas no mundo que o achavam útil). Criar dicionários (já imaginou a quantidade de páginas para o verbete "coisar"?). Tenho muita vontade de aprender, só não quero ter de responder de qualquer jeito, sem entender o que me perguntam. Já entendo "sua batata tá assando", "sipá", "cê tá causando" e outras dez expressões do tipo. Inclusive já tive a oportunidade de ensinar algumas e contextualizá-las para outros colegas que caminhara para a dimensão paralela. Ainda assim estou perdida. Se algum leitor puder fazer a gentileza de indicar um curso rápido (claro, para acompanhar as mudanças constantes de significado de palavras como "troço" terei que fazer diversos cursos rápidos), agradeço. Melhor ainda, deixo um "Valeu, mano." para você.
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